Terça-feira, 22 Maio 2012 Importante para você.

Já temos nossas crises, mas somos vacinados

Por Jorge Salomão, colunista de Aporte Economia
Consultor empresarial e professor do Centro Universitário UniÍtalo

A luta partidária em terras do Tio Sam, a envelhecida Europa e seus sistemas de proteção social dragando recursos se fazem sentir nas economias dos demais países e corroboram a presidente, obviamente, não somos uma ilha. Então, precisamos correr e acertar os “ponteiros” aqui mesmo, no nosso “aquecido quintal”, solidificando nossa capacidade de consumo, ao mesmo tempo combatendo a inflação.

Os grisalhos, na faixa dos 40, que vivenciaram a Correção Monetária (Lei 4.506, de novembro de 1964) lembram do processo inflacionário, da correção “automática” de preços, custos e salários (sempre defasados). O espaço seria curto para citar as tantas moedas que tivemos, mas era a época do Cruzeiro. A Lei tinha enfoque fiscal, mas logo, vários setores da economia aderiram ao movimento de correção.

Todos que tinham algum tipo de contas a receber valiam-se do instrumento para proteger seus ativos, utilizando o IGP (Índice Geral de Preços). Até o Poder Judiciário incorporou a prática (Lei 7.713 de 1981) corrigindo causas e honorários advocatícios. Os brasileiros mais “experientes”, certamente lembram-se da UFIR, da OTN.

Foram 30 anos de correções automáticas de preços, até a chegada do Plano Real, em 1994. Depois passamos a utilizar a taxa referencial da Selic e tivemos a percepção de “tudo resolvido”, bendito Plano Real. Em 1995 extinguiu-se a Correção Monetária automática, que servia para atualizar (indexar) os preços sempre que a variação do IGP ultrapassasse 10% ao ano ou 15% no triênio. Hoje tudo está melhor, graças à bem-vinda “nova classe média” e à fome mundial por commodities (nesse assunto somos bons).

O que preocupa é se aquela mesma classe média vai entender quando o IGP bater à porta. Seja com nome de Selic, CDI ou inflação, todos tão filosófica e intimamente ligados na formação de preços, custos e taxas (e empregos, por fim), tão automáticos como no passado, nos contratos e quando aparecerem os boletos de cobrança com juros e multas anexadas à falta de capacidade de pagamento.

Segundo a FGV, nosso IGPM “tem como base metodológica a estrutura do Índice IGP-DI, resultando da média ponderada de três índices de preços: o Índice IPA-M, o Índice IPC-M e o Índice INCC-M”. Mas isso tudo significa o que mesmo? Muitas “letras” para o cidadão comum. O que importa é o que a maioria percebe: estão subindo e corroem as relações. Apesar de tudo o assalariado pode negociar! Vai pedir o aumento necessário para manter sua capacidade de pagamento. Mas nessa crise? Pode não ser uma boa ideia. Assim, a categoria funcional que no mês de julho passado não obteve 8,35% de reajuste perdeu para o IGPM, isso em um ano. Os aluguéis sobem com essas letras, a conta de energia, a escola dos filhos. Essa última não se cansa de ultrapassar o índice (se não quisermos filhos itinerantes pelas escolas do bairro, melhor cortar alguma outra conta e negociar muito), sem falar dos preços das concessionárias de serviços públicos (com estas não há negócio!).

Apesar da inflação visível (sensível) em nossas casas, da anunciada retração do consumo mundial, quem veio daquela época, nem tão distante, não imaginaria, remotamente, que um dia o Brasil teria US$ 350 bilhões em reservas e que seria credor dos EUA. Só em sonho. Deve facilitar o trabalho do governo, mas a soberba é um perigo, tanto pessoal quanto Governamental. Então, cada um de nós deve acompanhar seu orçamento e sua “inflação pessoal”, assim como o próprio governo (este mais que todos), não achar que está tudo bem, simplesmente outra “marolinha”.

Não poderemos facilitar. Aos “quarentões vacinados”, vacinem vossos filhos. No nosso caso, precisamos reavaliar nossas obrigações pessoais e os contratos, que continuam embutindo a “inflação automática de cada um”, através de um ou outro índice. Seja sob o nome de correção, atualização ou juros, o índice estará lá, isso é certo.

Dos governos, apesar dos avanços, é continuar aguardando as desejadas reformas na esfera fiscal e previdenciária, com as possíveis desonerações, e não podemos esquecer da moral e ética. Esta última parece que se iniciou e tomara que continue, mas pelo tamanho do problema nos noticiários, vai levar um bom tempo.

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