Sparnet
Terça-feira, 22 Maio 2012 Importante para você.

FGV avalia cenário da economia no país e no mundo para 2012

Menos crescimento e inflação ainda elevada no Brasil, frente a um cenário mundial economicamente desfavorável, sem previsão de melhora no curto prazo. Essas foram algumas das conclusões do seminário trimestral de Análise Conjuntural do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), realizado ontem (14), na sede da Fundação Getulio Vargas , em Botafogo, no Rio de Janeiro.

As apresentações foram divididas em cinco blocos. Regis Bonelli, Aloisio Campelo Jr, Salomão Quadros, André Braz e Silvia Matos — todos pesquisadores do Centro de Economia Aplicada do Ibre/FGV — apresentaram projeções sobre nível de atividade, emprego e renda; sondagens; inflação e política monetária; e política fiscal, setor externo e projeções macroeconômicas, respectivamente. O evento ainda contou com a participação de Monica de Bolle, diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica (IEPE – Casa das Garças), que apresentou uma análise da conjuntura político-econômica internacional, com destaque para a União Europeia e os Estados Unidos.

Regis Bonelli, especialista em Análises Econômicas, destacou a forte desaceleração do PIB no terceiro trimestre. “Só não houve uma queda maior neste indicador por conta da agropecuária. Três produtos, particularmente, ‘salvaram’ o PIB: mandioca, laranja e feijão”, comentou. Bonelli destacou, entretanto, que o brilhantismo registrado pelo setor agropecuário em 2011 não deverá se repetir no próximo ano, devido a uma tendência mundial de queda. Além disso, o economista também indicou a redução do ritmo de criação de empregos, em virtude de um mercado de trabalho apertado. “O mercado de trabalho não está tão aquecido. A criação de empregos diminuiu e, apesar da taxa de informalidade também ter caído, ainda está alta, em torno de 23%”, afirmou.

Aloísio Campelo Jr, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos, mostrou a queda do Índice de Confiança nas sondagens de Comércio, Indústria, Serviços e a recém-lançada Construção, que constituem as chamadas Sondagens Empresariais. Com relação à Indústria, Campelo comentou: “É um setor que destoou muito neste ano, com um desempenho bastante ruim. Parece improvável que cresça no quarto trimestre e as perspectivas são fracas para os próximos meses”, afirmou, indicando uma queda da produção física da indústria de 1,8% no trimestre que terminou em outubro, e uma queda do nível de confiança de 10,7% no mesmo período. Apesar de uma melhora da confiança entre outubro e novembro, o especialista destacou que o segmento de bens e capital foi o único que manteve queda nas expectativas no último mês. Quanto ao Comércio, a queda no volume de vendas do varejo ampliado foi de 1,5% no trimestre findo em outubro, com destaque para o setor automobilístico, com -1,6%. Isso significou uma queda no nível de confiança de 4,6%. O Serviço foi o setor que menos sofreu queda nas expectativas, com -2,4%.

Salomão Quadros, coordenador do Índice Geral de Preços, comentou o IPCA do IBGE, que ultrapassou o pico da meta em setembro, atingindo 7,31%. A inflação, a partir daí, começou uma trajetória de desaceleração e deve fechar o ano em 6,5%. A projeção da inflação acumulada para o início de 2012 é de 5,5% em abril, e, nesta época, duas previsões foram abordadas pelo economista: “Pelo cenário do Banco Central, o governo cumprirá todas as suas metas, fará ajustes moderados na Selic e, ao fim do ano, a inflação estará em 4,5%. Num cenário alternativo, de ‘reaquecimento forçado’, a taxa de juros sobe e as pressões inflacionárias são grandes, havendo uma deterioração da economia mundial, mas sem ruptura — o que faria a inflação fechar a 6,0% em 2012”, disse o coordenador.

Em complemento à apresentação do Salomão Quadros, o economista André Braz comentou que “uma mudança no cálculo, incorporando POFs (Pesquisas de Orçamentos Familiares) menos defasadas, garante um ajuste na qualidade do índice.”

Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro, fez comentários e projeções a respeito do crescimento real da economia brasileira. “O crescimento brasileiro projetado pelo IBRE para 2011 é de 2,9%”, afirmou, indicando, para 2012, uma estimativa de PIB na faixa dos 3%. No caso da política fiscal, apontou dificuldades em cumprir o superávit no ano que vem devido, entre outros fatores, ao impacto do aumento do salário mínimo em itens como o déficit do regime geral da previdência e no seguro desemprego, além de outros riscos como o de aprovação de reajustes salariais para servidores do Judiciário e para os aposentados que ganham acima de um salário mínimo. Quanto ao Setor Externo, a estimativa apontada por Silvia é de uma queda do saldo estimado da Balança Comercial em 2011, de US$ 26 bilhões, para US$ 14 bilhões em 2012, e uma estimativa de déficit no saldo em conta corrente de -2,2% para 2011 e -3% em 2012.

As perspectivas para o cenário internacional foram analisadas por Monica de Bolle, convidada pelo IBRE para apresentar-se no seminário. Com uma visão bastante pessimista da situação europeia, Monica enfatizou a importância das recentes decisões tomadas entre França e Alemanha para o futuro do bloco. Na opinião da diretora, “o Compacto Fiscal, feito entre os países da Zona do Euro, nada mais é que a tentativa de recriar o Pacto de Estabilidade e Crescimento, de 1997, que, como todos sabem, não deu certo”. A especialista acha que a tentativa da Alemanha de “germanizar” a União Europeia não será bem sucedida. “É um plano que fracassou nos últimos dez anos. Não creio que será possível nos próximos dez”, disse. Para ela, a aliança negociada recentemente entre germânicos e franceses é frágil, não representando uma solução para os problemas estruturais pelos quais passa a região.

Para Monica, a complexa situação dos bancos da Zona do Euro e a escassez de crédito gerada se configuram um dos fatores mais delicados da crise. “O credit crunch é uma realidade na Europa. Se este cenário se agrava, as tensões políticas também se intensificarão”, disse. Segundo ela, a possibilidade de haver uma ruptura na zona do euro é grande. “Não me refiro ao desaparecimento da moeda, mas sim à saída de alguns países do bloco — como Alemanha, Grécia e Itália”, afirmou.

 

PUBLICIDADE